Expirar
Tirando de mim coisas que pesam.
Semana passada, eu achei que o mundo estava prestes a acabar.
Fazia tempo que a ansiedade não se fazia tão grande. Fazia tempo que meu couro cabeludo não ardia ao entrar em contato com o shampoo, porque a ansiedade transborda pelas pontas dos meus dedos que levo até a cabeça para aliviar - talvez como se meu corpo quisesse me comunicar: ‘‘ei, é aqui o problema’’. E na real, sempre foi.
Eu sempre pensei demais para meu próprio bem.
Eu chorei. Chorei feio, de rasgar o peito, de arranhar a garganta. Quis gritar contra o travesseiro e quebrar alguma coisa. Concluí, secando as lágrimas pós tempestade, que deveria fazer alguma arte marcial - as coisas transbordam demais em formato de raiva em mim. Chutar um saco de pancadas me faria bem, eu acho.
Bom, depois de achar que o mundo ia acabar e que minha vida estava desmoronando - lembrei que estava há 2 semanas sem meu remédio - por uma economia boba.
Comprei meu remédio no outro dia mesmo.
No primeiro dia foi o mesmo de não ter feito nada.
Mas 2 dias depois, passou.
Virei uma lagoa calma depois de um mar completamente turbulento.
E hoje, voltei pra casa pensando qual das duas versões sou eu. É a pessoa que está tão infeliz com a própria vida que chorar é a primeira coisa que quer fazer quando acorda - e o remédio só me faz não sentir?
Ou eu sou essa pessoa funcional e produtiva por horas a fio sem quebrar, que a falta de algumas químicas cerebrais impede de viver sua melhor vida?
Existe resposta pra essas coisas? Minha psicóloga perguntaria por que isso importa.
E, de fato, pouco importa no sentido prático.
Mas me incomoda.
Em partes, me incomoda também precisar de um remédio para ter algum tipo de regulação emocional e não ser impulsiva. Me sinto menos humana, sabe? Parece que estou anestesiando uma parte de mim que me convém.
Mel, minha cachorrinha mais velha, também morreu na semana passada.
E isso, obviamente também me afetou.
Fiquei pensando que eu fui a primeira pessoa que a alimentou e também a última. Que fui o primeiro carinho que ela recebeu quando chegou e também o último. Eu não sabia que seria o último. A gente nunca sabe, né?
Como passa rápido, o tempo!
E como o ser humano gosta de fantasiar uma volta no tempo, né?
Quis muito voltar aquele dia que recebi aquela bolinha de pelos.
Quis muito ter feito inúmeras coisas diferentes.
Mas tudo isso é só tortura agora.
A dor já foi minha companheira por muito tempo. E por muito tempo achei que o mundo ia sempre acabar no outro dia.
Mas foi horrível estar lá de novo.
Coloquei na agenda.
Não vou mais ficar sem remédio.
Embora viver ainda doa, independente da anestesia que se tome.
Que doa menos, né?

Há um tempo atrás, bem pouco tempo atrás, fiz exatamente a mesma coisa, fiquei sem medicação por duas semanas, porque simplesmente esquecia ou deixava pra depois e de tanto deixar, o tempo passou e eu só me dei conta quando a depressão já estava prestes a me abraçar. Entendo cada milímetro do sentimento que descreveu nesse texto, me sinto por vezes quebrada e me questiono quem sou eu, se essa versão medicada e funcional ou se aquela que desconta a raiva no impulso, que não consegue de fato executar coisas simples sem um enorme esforço. A verdade é que também não tenho a resposta e talvez ela não importe mesmo, mas também me incomoda não tê-la, sabe amiga? Mas talvez viver seja um pouco incômodo mesmo e assim sendo vamos vivendo um dia de cada vez, mesmo sem saber como bem esses dias virão a ser. Obrigada por se deixar transbordar, é bom saber que não estou sozinha neste sentimento. Vamos juntas, porque siiim, toda vez que choveu parou, felizmente.